elegia moderna
você viverá mais tempo do que eu
tem joelhos lindos para começar
não come produtos industrializados
corre tantos quilômetros por dia
encontra amantes com facilidade
se lança com as amigas às compras -
seu crédito é sólido como gibraltar
visita a europa duas vezes por ano
fala um francês impecável
faz um homem se sentir pobre
só de olhar para suas unhas
você é quase o oposto de tudo aquilo
que eu poderia elogiar
mas guardará parte do que eu fui
parte do que fomos
a bandeja de morangos frescos
comprada junto ao sinal
numa tarde de abril em porto alegre
o quarto de cortinas cafonas
da primeira placa que encontramos
viverão apenas em sua memória
quando eu estiver morto
por isso te deixo estes versos, princesa
para que se lembre de mim uma vez mais
dentro da câmara de bronzeamento artificial
escrevo estes versos
escrevo estes versos para o amigo que mesmo condenado
descobriu que ainda havia tempo para encontrar o amor
escrevo estes versos para a mulher que um dia abandonei
a quem desejo que encontre o filho que nunca pude lhe dar
escrevo estes versos para o meu quitandeiro da esquina
por beber um litro de graspa e erguer caixas às 6 da manhã
escrevo estes versos para aquele velho professor de latim
por me ensinar que a poesia é basicamente um desperdício
escrevo estes versos para o conforto de um poeta do campo
longe de sua lisboa que foi o mundo antes mesmo de camões
escrevo estes versos para as flores da última primavera
cantada pelos mestres chineses tantos séculos antes de mim
escrevo estes versos para uma menina perdida no futuro
que há de lê-los com as mãos iluminadas de tocar sua carne
ao fim da montanha
ao fim da montanha
no topo da escada de ferro
eu a vi pela primeira vez
o copo plástico de café
aninhado entre suas mãos
desprendia um vapor visível
como o mar em certas manhãs
envolvendo-lhe o rosto todo
antigo filtro medieval
através do qual duas gemas
tão mais fundas do que pode a luz
moviam alguma coisa aqui dentro
era ainda o início do outono
e eu viria a conhecê-la depois
quando fosse tempo de partir
três horas da manhã em porto alegre
três horas da manhã em porto alegre
na pia as mesmas louças de ontem
e o copo partido e as gotas secas de sangue
três horas da manhã em porto alegre
e mais uma vez verás fracassar
o estranho mecanismo do sono
três horas da manhã em porto alegre
lá embaixo alguém grita por quase um minuto
mas depois silencia a sirene de carne
três horas da manhã em porto alegre
protestam cocotas as persianas da sala
contra a frieza do vento em pleno janeiro
três horas da manhã em porto alegre
nada resta na garrafa de puro malte da ilha
mas sobejam cartas da imobiliária
três horas da manhã em porto alegre
e para os ponteiros do velho relógio
o tempo é um mero problema de angulação
três horas da manhã em porto alegre
brilham focos de luz na vizinhança
de todo incapazes de iluminar o bom fim
Para encontrar A última temporada
Se você tem intersse no livro, mas enfrenta dificuldade para encontrá-lo em sua cidade, segue abaixo o link da Livraria Cultura.
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=5130774&sid=77181082414114574854044932
Artigo sobre A última temporada – O globo – 14/01/12
A batalha poética de encantar
por Mariana Ianelli
Estreia do gaúcho Pedro Gonzaga na poesia, “A última temporada” prenuncia no título a fina ironia do livro, visível, antes de tudo, no fato de um poeta surgir aos 35 anos para inaugurar um fim. Desde uma juventude que termina, e com ela certa exultação e certa irresponsabilibidade, os poemas de “A última temporada” têm o poder de atravessar esta sutil ironia do título para ir à poesia propriamente dita.
Chega, portanto, aonde poucos chamados jovens poetas costumam chegar, a um ponto de suspensão em que a cotidianidade não desencanta o verso. Ao que se perde de uma geração para outra de uma família, ao “misterioso exoesqueleto abandonado” de algumas roupas, à morte de um amigo, o poeta responde com a força de imagens que ficam, com uma fantasia que não se deixa intimidar pela aspereza da verdade de “inquisidores e síndicos”.
Se há um imperativo que move o poeta, esse imperativo é “uma ilusão adamantina, não a verdade”, pois “se puderes fechar os olhos para o real/ fecha agora/ não te preocupes,/ antes,/ aproveita/ hão de acordar-te os credores/ a dor no ciático/ o fingimento da mulher que nunca se entrega”.
Defender e fazer durar essa ilusão requer nada menos que uma batalha poética, afinal, encantar tanto perdeu valor que “quase já não há mais garotas sentimentais/ e por isso o mundo está perdido/ por isso o mundo só poderá ser salvo/ quando armado de alaúdes/ voltar à provença/ um novo exército de trovadores”. É assim que os poemas de Pedro Gonzaga respondem à cotidianidade com o poder da fantasia. O amor entre dois bêbados de vinho, o erotismo da mulher transmudada em ave mítica, a lembrança de dois corpos jovens tingidos de azul e vermelho sustentam, no poema, um instante fora do tempo. Até mesmo “a macabra fantasia” dos mortos, “de permanecerem iguais/ em nossa memória”, participa desse estado poético de suspensão, de encantamento, que não se decompõe como acontece ao efeito da ironia.
A batalha poética de “A última temporada” se faz desde dentro da poesia e também à poesia se dirige, à expressão de uma época desencantada que marca presença na estética contemporânea tanto no seu apreço pelo coloquialismo quanto na expressão de uma poesia autorreferente, instilada pela teoria.
Em seu “poema em linha torta”, Pedro Gonzaga fala daqueles que “de todos os lados/ armam-se de teses/ (futuristas cansados)”, os que “debatem o fim da lira/ locupletam-se com artigos/ em revistas indexadas”, os que “alegam ser capazes de ler na tela/ 300 páginas mas não vencem uma quadra/ de quevedo”. Já farto “da maçada de lhes dar combate”, o poeta apenas ergue seus versos e os mantém suspensos – porque esta sim é a sua batalha – sem pretender enfrentar o que não seja o próprio alcance da poesia no seu benefício de envolver “num delírio (dolorosamente necessário)” quem dela se aproxima.
O teor irônico que sutilmente compõe o livro serve como um reflexo do rosto que o espelho devolve e que o poeta confronta com outra visão, aquela que não envelhece na memória. Mas Pedro Gonzaga não ri apenas de sua nostalgia como ainda ironiza sua condição de poeta num mundo onde o que importa é estar preso ao chão e às coisas chãs: “mais uma vez deliraste/ feito um adolescente/ com a solidão sem par de marco aurélio/ o que não se deixava alegrar/ nem pelo império indiviso/ nem pela admiração renitente dos soldados/ a quem por certo haveria de ferir/ o filho dissoluto/ de que te serve, afinal/ o áspero estoicismo helênico das meditações?/ (…)/ verás que não te aguarda o exílio fatal em capri/ não cunharão teu perfil na face áurea da moeda/ terás meramente o financiamento cancelado/ então veremos até onde vai tua poesia,/ bravo estoico”.
Esta autoironia, que não protege o poeta de suas dúvidas nem dos seus limites, inverte o sentido da irreverência. Este homem que antes teve “esperança,/ agora uma azia intermitente”, este que, como “dédalo”, de um dos belos poemas do livro, “ao inventar uma fuga”, inventou “também uma queda”, sabe que já não pode se escudar no humor quando lhe bate à porta a morte de um amigo, a falta de amor, o dia em que terá de “abraçar o corpo frio de seu pai”.
De todas essas perdas e incertezas expostas, quando “a orquestra pára/ e um a um os rostos abrem suas pétalas”, desse lugar mais profundo do silêncio aonde o sarcasmo não chega é que a poesia de Pedro Gonzaga se alimenta. O encontro de Ovídio e Napoleão, separados pelos séculos mas unidos pelo destino de “uma queda e uma esperança”, no poema “dois homens em elba”, e o antológico poema “em zama”, que retrata o instante entre a esperança e a queda de Aníbal, sintetizam uma só derrota emblemática, a que dá “palavras/ (suprema humilhação)/ a este precário poeta/ do outro lado do mundo/ desconhecido”. Se a ilusão inconsciente chega à sua última temporada, Pedro Gonzaga tem diante de si a fantasia necessária, este desejo que “seguirá clandestino/ rumo a uma outra estação”.
soneto
tormentoso desejo agora vivo
só por vos ter tão perto, doce amiga
conturba-se-me ardente o sangue à briga
que com malícia ergueu amor esquivo
encontro e logo perco meu juízo
quis razão evitar minha desdita
mas se ao vos ver um não sei quê se agita
sois perdição e incêndio e paraíso
encarnação da dádiva primeira
semideia que um árabe cantava
em vós respira a flor da laranjeira
primavera que esconde a verde fava
aniquilai-me a paz, feroz cegueira
toda nudez que vossa mão guardava
pequena
que é feito de você no mundo, pequena?
sem você sou
o poeta romano em seu exílio
um bárbaro sem lar de khan
um embaixador menor da pérsia
que é feito de você agora, pequena?
sem você sou
a pantera imóvel de rilke
o corvo empalhado de poe
aquele velho albatroz francês
que é feito de você sem mim, pequena?
eu, o último astro da madrugada
extinguindo-me lentamente
à espera de um sinal
segundo poema da estrada
fundar para abandonar
pisada e afogada relva
sob tantos pés anônimos
primeira invenção do homem
não poderá me reconduzir
a teus braços ternos
às tuas pupilas submersas
no verde e azul da água ao sol a pino
outra vez a estrada
eu te vejo ao longe
eu percorro a distância
eu farejo o vento
antecipação da carne
o querermo-nos juntos
que nunca estará no final
mas no centro da encruzilhada
