três horas da manhã em porto alegre
na pia as mesmas louças de ontem
e o copo partido e as gotas secas de sangue
três horas da manhã em porto alegre
e mais uma vez verás fracassar
o estranho mecanismo do sono
três horas da manhã em porto alegre
lá embaixo alguém grita por quase um minuto
mas depois silencia a sirene de carne
três horas da manhã em porto alegre
protestam cocotas as persianas da sala
contra a frieza do vento em pleno janeiro
três horas da manhã em porto alegre
nada resta na garrafa de puro malte da ilha
mas sobejam cartas da imobiliária
três horas da manhã em porto alegre
e para os ponteiros do velho relógio
o tempo é um mero problema de angulação
três horas da manhã em porto alegre
brilham focos de luz na vizinhança
de todo incapazes de iluminar o bom fim